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A reutilização de garrafas gera renda em Nampula

O reaproveitamento de vasilhames de cerveja, de 340 mililitros, das marcas nacionais e importadas, tais como 2M, Manica, Heineken, Lite, Laurentina, Spin, Amstel e Reds, está a gerar renda e garante a subsistência de algumas famílias na cidade de Nampula. Este é um negócio que, para além de constituir uma fonte de receita para um número considerável de pessoas, tem um efeito positivo para o meio ambiente, uma vez que de há uns tempos para cá é difícil encontrar uma garrafa para o enchimento de bebidas alcoólicas, descartada na via pública ou nos quintais.

Todavia, é uma actividade que exige muito esforço para quem pretende ganhar um pouco mais de dinheiro porque os preços estipulados na venda são considerados bastante diminutos e é preciso juntar uma quantidade significativa de garrafas.

A partir de uma certa altura a esta parte, o comércio de objectos a que nos referimos, segundo os praticantes, registou uma queda de rendimento em consequência da paralisação de uma das maiores fábricas que compravam garrafas em quantidades enormes, a Vinical, situada na cidade de Nacala-Porto, e que supostamente detinha o monopólio deste negócio.

Aos fins-de-semana, em Nampula, os recipientes destinados a conter bebidas feitas de cevada e outro tipo de líquidos são descartados sem o devido cuidado um pouco por todos os lados da urbe, sobretudo nas zonas onde funcionam alguns estabelecimentos de diversão nocturna. Contudo, num instante, os munícipes recolhem os vasilhames um a um.

Com os sacos às costas, certos cidadãos que levam uma vida modesta frequentam as casas de pasto nos períodos diurnos e nocturnos para conseguir determinadas vasilhames que garantam a renda: cinco garrafas custam um metical e são revendidas por um metical cada. Ao nível da cidade de Nampula, alguns postos fixos instalados para a comercialização desses objectos de vidro são as imediações dos mercados 25 de Setembro, vulgo Matadouro, e Memória, sitos ao longo da Estada Nacional número 08.

Em diferentes partes do território moçambicano, as garrafas recolhidas em vários locais são posteriormente negociadas a um grupo de revendedores. Estes, por sua vez, vendem a outras firmas que fabricam produtos tais como Gin e Água de Papá bastante consumidos um pouco por toda a província de Nampula, sobretudo nas zonas rurais e circunvizinhas de Cabo Delgado, Niassa e Zambézia, e o preço de aquisição raras vezes excede os 50 meticais por unidade.

O @Verdade apurou que a venda de garrafas recicláveis é uma actividade que envolve também alguns vendedores da capital do país, que fazem o negócio directamente com as fábricas de Nacala-Porto e Nampula.

De Maputo para aqueles pontos do país transportam quantidades significativas de recipientes de 2M, Manica, Heineken, Lite, Laurentina, Spin, Amstel e Reds em camiões de grande tonelagem. Os preços de aluguer dos meios de transporte usados para o efeito ascendem os 80 mil meticais por viagem, enquanto o preço cobrado para levar a mesma carga de Nampula para Nacala, por exemplo, é de cinco mil meticais.

Na capital da região Norte, as pessoas envolvidas na entrega de garrafas vazias nos lugares a que nos referimos, com o intuito de ganhar dinheiro, são também as economicamente estáveis e, segundo contaram à nossa Reportagem, subiu na vida graças à venda desses mesmos objectos. Refira-se que esta actividade é exercida somente por homens, na faixa etária compreendida entre os 20 e os 40 anos de idade. Porém, em Maputo, o cenário é inverso.

Não faltam crianças que, diga-se, contra a sua vontade, são obrigadas a ajudar as suas famílias. É igualmente normal encontrar, para além de petizes, idosos a fazerem o mesmo tipo de trabalho. Para conseguir recolher grandes quantidades desses objectos, eles têm de despertar cedo e percorrer as ruas, as lixeiras e os mercados, principalmente fins-de-semana.

Os negociantes com quem dialogámos contaram-nos que quando a procura de vasilhames é maior cada um chega a custar três meticais. Antes de entrar neste negócio, Pablo trabalhou como estivador e ao contrário do que alguns colegas do ramo têm dito (no final das contas o rendimento não compensava o esforço feito) ele considera-se uma pessoa de sucesso:

“Faço este negócio há cerca de quatro anos e comecei com o meu antigo patrão, com quem eu viajava de Nampula a Nacala para vender garrafas. No princípio esta actividade era pouco rentável devido aos custos de transporte, mas ultrapassei esta dificuldade.”

Eugénio António, também comerciante de garrafas para o enchimento de bebidas alcoólicas e outros líquidos, narrou que iniciou a actividade em 2010 com 500 meticais: “Outrora vendia petróleo de iluminação, mas o lucro não chegava para nada, isso a medir pelo número do agregado que eu tinha na altura.

Passei a exercer este negócio a convite de um amigo; comprava os vasilhames em algumas casas ao preço de 50 centavos cada e revendia por um metical na fábrica de aguardente Enika. Pouco a pouco, acumulei grandes quantidades para revender na cidade de Nacala-Porto, e os lucros eram avultados”, sublinhou o nosso entrevistado.

Amisse Aly lidera o grupo de revendedores na cidade de Nampula e disse ao nosso Jornal que tem uma longa experiência no ramo. Todavia, queixa- -se da falta de mercado desde a altura em que a fábrica Vinical encerrou as portas temporariamente. “Este negócio é benéfico para nós mas o mercado está fraco.

Em Nacala, compramos um conjunto de caixas nas quais depositamos as nossas garrafas a um valor de 125 e revendemos a 1000 meticais, enquanto na cidade de Nampula os lucros são altos porque negociamos o produto com os proprietários de algumas barracas que operam junto da fábrica de Enika sem que tenha sido embalado.”

Caetano Miguel, director do Meio Ambiente, Água e Energia no Conselho Municipal da Cidade de Nampula, disse que os comerciantes de garrafas estão a reutilizar esses objectos de forma positiva dando um destino certo e benéfico para a urbe do ponto de vista ambiental, sobretudo porque a província de Nampula ainda não dispõe de fábricas de copos que possam reaproveitar os recipientes de vidro descartados em vários locais da via pública. “Nos últimos anos temos observado muita procura de garrafas sobretudo de água mineral e de bebidas alcoólicas.

Trata-se de objectos que poderiam ser usados para outros fins e actualmente o negócio ocorre de forma espontânea quando devia haver um acompanhamento devido ao crescimento do número de interessados na sua prática”, observou o nosso entrevistado, para quem há uma necessidade de se regulamentar o processo de comercialização de vasilhames para que possa ser feito de forma regrada e garanta a sua acumulação em locais apropriados e não se prejudique o exercício de outras actividades.

O Conselho Municipal da Cidade de Nampula oferece-se a disponibilizar um espaço apropriado para os operadores daquele ramo de reaproveitamento de garrafas. É um negócio que, “para além de gerar receitas e postos de trabalhos para muitas pessoas, reduz a quantidade de resíduos sólidos produzidos na cidade”, concluiu o director.

Refira-se que, recentemente, os proprietários da fábrica Vinical realizaram uma exposição de vários objectos recicláveis, dos quais uma parte era composta por garrafas de vidro. Na altura, alertaram a sociedade para a necessidade de obter dinheiro através da venda de garrafas usadas.

A partir daí, alguns munícipes passaram a ter uma fonte de rendimento. Aliás, uma experiência recente deu-se em Nampula, numa exposição promovida pelo Fundo Nacional do Ambiente.

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