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A praça dos “nossos” heróis

MARRABENTA E GWAZA MUTHINI  Do mito ao rito

 

Vivo na Praça dos Heróis. Vou descer na estátua. Encontramo-nos amanhã na estátua. Praça dos Heróis não é nenhum bairro e nem pretende sê-lo, apenas se tornou um ponto de referência para todos. Até o Ministério da Agricultura, bem mais antigo, e o hospital de Mavalane são mais fáceis de localizar tendo como marco esta praça. Melhor homenagem não poderia haver para os heróis que não fosse esta de estar na boca de todos. E quando alguém diz que desce ou vai encontrar-se com alguém na estátua, refere-se à estátua de Eduardo Mondlane. Para muitos, hoje, a palavra estátua significa Eduardo Mondlane.

 

Foi em 1976 que a Praça dos Heróis foi palco de um acontecimento que iria mudar radicalmente a geografia humana da cidade de Maputo, exactamente a 3 de Fevereiro. Num comício popular largamente concorrido, como o eram todos naquela época, o Presidente Samora Machel anunciou a nacionalização de todos os prédios de rendimento. Com efeitos imediatos.

De acordo com o principio invocado e à luz do processo de acesso às reais conquistas do povo moçambicano, todos os prédios de rendimento, inclusas as palhotas de caniço suburbanas, passavam para as mãos do Estado, sendo este quem deveria administrar o parque imobiliário. Com mais ou menos cambiantes, o decreto criador da APIE viria a legitimar o enunciado daquele comício popular.

Foi, no quadro desta decisão governamental, necessáio estabelecer parâmetros e mecanismos para a sua implementação. Assim, ficou determinado que todos quantos auferissem um salário base a partir de seis mil escudos deveriam passar a viver nos prédios urbanos, cujas rendas mensais já se encontravam padronizadas de acordo com este considerado mínimo para comportá-las. Na altura, com efeito, o valor médio da renda mensal estava por mil e quatrocentos escudos. Sem grandes extrapolações, tais valores têm equivalência com este metical da nova família, incluindo o poder de compra.

Quanto ao sistema de contratos de arrendamento e formas de pagamento da respectiva obrigação, a responsbilidade ficou por conta do Montepio de Moçambique. Tratava-se de uma instituição de banca comercial e de previdência social espalhada pelo país e cuja sede se encontrava na Av. Fernão de Magalhães, no actual Barclays. Por ironia de circunstâncias, ou fosse por conhecimento de causa, o certo é que mais de oitenta porcento dos prédios da capital e, quiçá, de outras cidades, encontravam-se hipotecados neste banco.

Com efeito, ainda hoje, os livros de registo predial contêm esta informação, a que houve de acrescentar uma citação ao decreto nacionalizador, que retira o ónus desta hipoteca. Como diria o saudoso Leite Vasconcelos, o pilão invadiu Polana. Foi um transladar da cultura suburbana, ainda meio rural, para o centro cosmopolita de Moçambique. Naturalmente que as consequências desta migração se não fizeram esperar e na degradação dos prédio é que se viram tais efeitos.

Seja como for, são inegáveis as vantagens deste 3 de Fevereiro, da Praça dos Heróis, que consagrou estes e permitiu a largas camadas da população viver onde só punham o pé como criados e pouco menos. Nem teria sentido uma independência que não houvesse contemplado este aspecto de habitação condigna para os moçambicanos. Portanto, esta praça também se torna ponto de referência porque a partir dela se constituiu este alicerce habitacional nosso. Não poderíamos ter chegado aqui sem aquele ali que foi a Praça dos Heróis, a 3 de Fevereiro???. Aquele monumento é, efectivamente, uma estrela que brilha nas nossas vidas, alimentada pelos nossos heróis ali depositados.

Na outra vertete e como ficou logo dito, a Praça dos Heróis é mais do que isto. É um espaço absorvente, que retirou força a antigos referentes como o Ministério da Agricultura, o hospital de Mavalane, a Escola Secundária do Noroeste, com uma celebridade que vinha dos áureos tempos do colonialismo, a Urbanizaçâo, como bairro, o mercado Delina e muitos outros pontos de que se falava para orientação das pessoas. Por isso, a lógica informação de que “vivo na Praça dos Heróis” “trabalho na Praça dos Heróis”, “vou àquele hospital da Praça dos Heróis”.

Por consquência lógica do hábito e decurso do tempo, a consagração far-se-á por si. Bairro Praça dos Heróis. Na vertente “trabalho na Praça dos Heróis” não é difícil constatar esta realidade. Esta Praça é, na verdade um verdadeiro centro comercial. Compra-se e vende-se de tudo, desde o açúcar até os mais sofisticados materiais de contrução, passando por telemóveis, computadores e, como não poderia deixar de ser, as moedas externas mais correntes nesta zona da África Austral.

Metade da rotunda disponível, a que não corresponde ao Ministério da Agricultura e ao mural da praça, está ocupada pelo comércio grossista e a retalho, bem como por algumas casas de pasto, que tornam o lugar um movimentado centro de convívio entre pessoas provenientes de diversos pontos. As noites da Praça dos Heróis são belas exactamente por causa deste movimento das barracas e da musicalidade do ambiente iluminado àquele modo único. Buscar o autor ou arquitecto do monumento, já pouca monta tem. Glória vai para a ideia edificante deste monumento que eleva os nossos heróis para a verdadeira dimensão das estrelas.

Quanto à estátua de Eduardo Mondlane, se a zona que lhe está adstrita não sofre maiores absorções, decorrem do simples facto de que o espaço circundante não tem tanta disponibilidade para o estabelecimento daquele conjunto de poderosas máquinas do comércio informal. Mas ela é imponente naquele ponto, onde nunca é possível não ser vista, daí o seu carácter referencial. Foi uma homenagem a condizer com a estatura e carisma de Eduardo Mondlane.

 

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