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A Europa no liquidificador

Agências de risco de crédito (do inglês credit rating agency de sigla CRA), conhecidas também por agências de rating, baixam as notas de países europeus que perderam o controlo das suas dívidas soberanas.

Pedir um Segundo empréstimo para honrar dívidas antigas que estão para ultrapassar o prazo é uma atitude constrangedora. Mas o que fazer quando uma Terceira pessoa anuncia a todo o mundo que a sua probabilidade de dar um calote é grande e o banco decide cobrar juros ainda maiores para cobrir novamente o cofre? Na actual crise dos países da zona euro, quem tem feito o papel de inconveniente são as agências de risco de crédito.

As três maiores nasceram nos Estados Unidos: Moody’s, Standard & Poor’s e Fitch. O trio tem sido implacável em denunciar governos nacionais que gastaram mais do que deveriam, não arrecadaram dinheiro suficiente e agora não têm um centavo para honrar compromissos anteriores.

Grécia, Portugal e Irlanda tiveram as suas notas rebaixadas. Há algumas semanas, as agências de risco ameaçaram reduzir também a avaliação da Espanha e da Itália – e até dos Estados Unidos. O temor de que espanhóis e italianos não consigam pagar os títulos que vencem este ano fez cair as bolsas de valores do mundo O todo.

A soma das duas economias representa quase um terço do PIB da zona do euro. Ao contrário da Grécia e Portugal, Itália e Espanha têm uma economia considerada grande demais para falhar.

A reacção foi estridente. O presidente da Comissão Europeia, José Manuel Durão Barroso, lamentou as notas más e pôs em dúvida a credibilidade das agências. “As nossas análises são mais refinadas e completas”, disse ele. A União Europeia pensa até em punir as autoras de rankings supostamente incorrectos.

Das críticas que as agências já receberam, as mais duras são as que falam de conflitos de interesses. Tradicionalmente, quem pagava pelo trabalho dessas companhias eram os investidores, que careciam de informações confiáveis daqueles que pediam dinheiro.

Nos anos 70, mudaram de táctica e passaram a cobrar dos que queriam solicitar um auxílio financeiro: os emissores de títulos. Actualmente, empresas no mundo todo contratam as agências de risco para analisar a própria saúde financeira. Se a avaliação é satisfatória, conseguem juros baixos nos empréstimos.

Em 2007, quando ocorreu o estouro da bolha imobiliária norte- -americana, essas firmas foram criticadas porque não haviam investigado correctamente bancos com créditos podres. Teriam sido coniventes com os seus clientes, escondendo os sintomas iniciais de uma doença grave? A pergunta permanece sem resposta.

No caso actual, em que governos nacionais são os que querem solicitar empréstimos e lançar novos títulos, ocorre o contrário. As agências viraram saco de pancadas por estar a ser rígidas demais.

“Mesmo que os cálculos acusem sinais de perigo, as grandes agências às vezes hesitam em rebaixar notas de países relevantes. Sabem que a reacção será enorme”, diz o economista Paulo Rabello de Castro, director da SR Rating, uma agência brasileira de risco.

Em 2009, a SR já havia rebaixado a nota dos Estados Unidos, antecipando em dois anos o que as americanas ameaçam fazer no próximo mês. “Fomos chamados de malucos”, diz Castro.

Um relatório sobre a capacidade de um país pagar as suas contas tem mais de cinquenta páginas. São utilizados em torno de vinte indicadores matemáticos, como a quantidade de reservas, a inflação e o crescimento do PIB. Factores subjectivos também são considerados.

O principal deles é o risco político, que se coloca não à capacidade de um país pagar as suas contas, mas à sua vontade de fazê-lo. O facto de a Grécia, por exemplo, estar à beira de um calote não surpreende. O país passou metade dos últimos 180 anos insolvente. Já a Alemanha é boa pagadora histórica, o que ajuda a elevar a sua nota.

O factor político teve um grande peso na crise de confiança nos títulos italianos, depois de o primeiro-ministro Silvio Berlusconi ameaçar demitir o ministro das finanças Giulio Tremonti, arquitecto do plano de austeridade aprovado pelo parlamento, na sexta-feira passada, que promete sanar as contas da Itália até 2014.

Muitos economistas acham que o prazo é longo demais. Bancos com altos volumes de títulos podres podem fechar as portas. Um teste feito com noventa bancos europeus, publicado na passada semana, concluiu que oito deles podem sucumbir à crise.

Gastar com prudência e aumentar as receitas não são as fórmulas usadas para evitar essa catastrófica bola de neve. É isso que faz a Alemanha. Demonizar as agências de rating, como tem sido feito, não garante a salvação do euro.

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