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A defensora dos direitos laborais

A defensora dos direitos laborais

Clara Munguambe é uma mulher invulgar. Não pelo facto de ocupar o cargo de secretária do Comité da Mulher Trabalhadora na OTM-Sindical Central e tampouco por ser empreendedora, pelo contrário, tal qualidade deve-se à sua entrega ao sindicalismo. Mas foi na década de 90 que ela se comprometeu a defender os interesses laborais das mulheres.

A história de Clara Munguambe começa em 1993, ano em que abraçou o activismo sindical. Mais tarde (três anos depois), abraçou o sindicalismo no sector de agro-pecuária. Tempos depois, alargou a sua vida sindical, passando a fazer parte da Organização dos Trabalhadores Moçambicanos- -Central Sindical (OTM-CS).

Presentemente, dedica a maior parte da sua vida à defesa dos direitos laborais dos trabalhadores moçambicanos. “É uma grande honra para mim ser uma das poucas mulheres que se entregam ao sindicalismo aqui em Moçambique”, regozija-se a secretária do Comité da Mulher Trabalhadora na Organização dos Trabalhadores Moçambicanos desde o ano 2003.

Porém, nem tudo está como ela desejaria. Clara lamenta o facto de haver poucas mulheres em Moçambique no sindicalismo, apesar de o sector agro-pecuário contar com um número considerável de trabalhadores de sexo feminino. Mas tem uma explicação para esse fenómeno: a complexidade do ramo de actividade.

“Grande parte das mulheres no período de manhã vai para a machamba e só regressa no fim do dia, além disso, elas têm que assumir algumas tarefas domésticas. Quase que não há tempo para aderir à vida sindical. Existem certas actividades que não são tão complexas como esta. Mesmo assim, há algumas mulheres sindicalistas”, explica.

Actualmente existem perto de nove mil mulheres filiadas no sindicato, um efectivo relativamente reduzido se se tiver em conta a existência de um grande número de mulheres moçambicanas que trabalham no sector agro- -pecuário.

Aumentos salariais insignificantes

A nossa entrevistada comentou que os recentes aumentos salariais aprovados pelo Governo são insignificantes, sobretudo para o sector agro-pecuário onde o salário mínimo anterior era de 2.105 meticais, tendo passado para 2.300.

“Na verdade o sector continua a ser menosprezado e injustiçado, mesmo sabendo que desta actividade dependem dezenas de milhares de famílias, sobretudo na zona rural, onde vive a maior parte dos moçambicanos”, assegura.

Clara Munguambe considera que as necessidades básicas não podem ser cobertas por um magro salário que os trabalhadores deste ramo de actividade auferem. Segundo ela, o ideal seria que estes trabalhadores tivessem pelo menos sete mil meticais como o seu salário mensal, pois só assim poderiam fazer face ao crescente custo de vida em Moçambique.

“Fazendo parte do activismo ou movimento sindical, os trabalhadores, seja de que sector forem, podem nos seus comités sindicais negociar não só os salários mínimos, como também outros benefícios, a exemplo de cuidados de saúde, de trabalho, entre outros assuntos do interesse da massa laboral”, disse.

O alívio que a cesta básica traria

Há sensivelmente um ano o Governo moçambicano tinha aprovado a introdução da cesta básica para os funcionários cujo salário fosse igual ou superior a 2.500 meticais, mas viria a cancelá-la.

Se o cabaz tivesse sido introduzido e alocado aos devidos destinatários, o sector agro-pecuário com um salário mínimo abaixo dos 2.500 meticais seria um dos maiores beneficiários. “É verdade que a cesta básica não iria resolver o problema dos míseros salários, mas podia sobremaneira aliviar o sofrimento dos moçambicanos abrangidos”, garante.

O lado social da sindicalista

Clara Munguambe, de 48 anos de idade, é mãe de quatro filhos, dos quais três raparigas e um rapaz. Natural da província de Maputo, reside num dos bairros periféricos da capital do país.

É quarta filha da união dos seus pais num universo de 12 irmãos. Os seus progenitores são naturais da província de Inhambane.

Considera-se mãe educadora e procura transmitir aos seus filhos alguns ensinamentos da vida, desde como se devem comportar até a forma de se relacionarem com os outros.

“É verdade que estamos num mundo onde a conjuntura política, social e económica muda constantemente. Antigamente bastava estudar para ter um bom emprego, mas agora as coisas mudaram. Mesmo assim, temos de apostar na escola ou na formação”, comenta.

Empreendedora

Mesmo sendo uma mulher com emprego formal, Clara Munguambe decidiu nos meados do ano 2000 enveredar pelo empreendedorismo. Fê-lo porque apenas com o salário não conseguia garantir o sustento da sua família, muito menos colocar os seus filhos na escola.

“Dedico-me à criação de frangos e felizmente consigo ter um rendimento adicional para poder cobrir as minhas despesas. Mais, ainda faço xitique (poupança rotativa) na comunidade”, conta e acrescenta que o valor que recebe quando chega a sua vez aplica-o noutras áreas.

Um dos problemas com que muitas mulheres deparam é a conciliação entre o trabalho e o lado doméstico ou caseiro. Quisemos saber dela como consegue dividir o tempo para ir ao serviço e cuidar da família, assumindo deste modo o papel das mães ou donas de casa.

“Eu não tenho motivos de reclamação, faço as duas coisas sem nenhum problema. Tenho de ir ao serviço durante a semana, cuidar dos meus frangos e também cuidar da minha família, além de outras ocupações como sindicalista”, assegura.

Logo pela manhã dentro e antes de rumar ao seu posto de trabalho, Clara Munguambe toma conta dos seus frangos e prepara as crianças que vão à escola.

O apelo ao sindicalismo

Ela é uma das moçambicanas que abraça o sindicalismo e deixa um apelo a todos os trabalhadores moçambicanos, sobretudo às mulheres trabalhadoras, para que adiram à actividade sindical.

“Só unidos na vida sindical é que podemos melhor defender os nossos direitos e interesses laborais. Assim podemos vencer os obstáculos que enfrentamos nos nossos postos de trabalho”, comenta para depois acrescentar que, por exemplo, as férias de parto entre outros assuntos que abrangem as mulheres podem ser discutidos e negociados com o patronato se, de facto, as mulheres enveredarem pelo sindicalismo.

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