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75ª Feira do livro da Minerva Central

Com a duração de 45 dias, a centenária livraria da baixa da cidade, que celebra este ano o seu 102º aniversário, organiza a 75ª feira do livro com diversas amostras da literatura nacional e não só. A feira existe há 75 anos, foi criada com o objectivo de proporcionar um momento de festa e de alegria em que as pessoas possam de uma forma financeiramente mais equilibrada participar do prazer da leitura e tornou-se numa tradição.

“Esta feira é uma tradição a que nós temos de dar continuidade e, por isso, continuamos a realizá-la todos os anos, ou melhor, a nossa ideia é não deixar morrer esta tradição”, comenta Vítor Gonçalves, director da livraria Minerva Central. Para aquele responsável, a feira do livro é o momento de encontro privilegiado entre o leitor e o livro em que este é vendido de uma forma mais acessível. Volvidos 75 anos, o principal desafio continua sendo disponibilizar livros a preços cada vez mais acessíveis de modo a satisfazer o leitor, e promover o evento anualmente. “Os órgãos de comunicação têm um papel fundamental na promoção da feira porque sem ela a cultura não existe”, disse Vítor Gonçalves.

O evento tem acontecido todos os anos no aniversário da Minerva. Este afirma que antigamente era mais complicado fazer uma feira do que nos dias de hoje, uma vez que os livros demoravam mais tempo a chegar a Moçambique. A Livraria Minerva Central foi fundada a 14 de Abril de 1908 por João António de Carvalho e desempenhou um papel histórico na promoção do livro e no incentivo à leitura em Moçambique. Através da Minerva grande parte dos moçambicanos teve, pela primeira vez, acesso a um livro e, segundo o director da livraria, os grandes escritores do país são hoje o que são graças ao papel e à presença da Minerva e é por isso que ela tem uma responsabilidade imposta pela própria história. Apesar de transcorridas décadas, a casa preserva a sua aura de deusa, um lugar revestido de magia e de histórias.

A inauguração da 75ª feira constitui um momento de relançamento e, de algum modo, de refundação da ideia, do significado e do papel do livro na construção de um futuro. “Queremos que no futuro continue a ter este papel no desenvolvimento do país e da próxima geração de moçambicanos”, afirma, tendo ainda acrescentado que é por essa razão que tem vindo a empenhar-se, não só na promoção de livro, mas também na edição de novos autores. Ou seja, a partir desta feira, a Minerva vai editar obras de jovens autores moçambicanos, e espera no mínimo publicar quatro por ano.

Refirase que já no próximo dia 25 Junho, a Minerva dará início à edição de livros de novos escritores nacionais. A feira em curso traz uma reflexão à volta do livro e do problema da leitura, sobretudo como incentivá-la em Moçambique, razão pela qual foram convidados alguns escritores a fim de falarem sobre esta questão, nomeadamente Mia Couto, António Cabrita, Calane da Silva, Paulo Borges Coelho, Sónia Sultuane e Rogério Manjate. Os preços das obras em exposição variam e os descontos rondam entre 15 e 30% e, aos sábados e domingos, os livros custam metade do preço praticado nos dias normais.

Para o futuro, espera-se que a livraria venha a proporcionar livros a preços acessíveis a todos os moçambicanos e que constitua um verdadeiro incentivo à publicação de autores moçambicanos. Refira-se que além de amostra de livros, teve lugar uma exposição de pintura do artista plástico Manuel Jesus Joaquim. Geração de gente sentada Mia Couto foi o escritor moçambicano escolhido para abrir a feira. Numa palestra subordinada ao tema “O Livro, a Leitura e Moçambique”, o autor de “Terra Sonâmbula” criticou o papel das creches, afirmando que, ao invés terem primeiro contacto com o livro, as crianças aprendem apenas a cantar e a dançar. Para aquele escritor, com esta situação está-se a criar uma “geração de gente sentada, acomodada”, e representa um disperdício de infância.

Na opinião do escritor, a cada dia que passa tem-se assistido ao “desmaio do gosto pelo saber”, porém, comentou que o mais valioso no livro não é o conhecimento, mas a relação que ele oferece com os outros, com a humanidade dos vivos e dos mortos. Mia Couto afirma que “através dos livros escutamos a voz dos que estão longe, o livro é um canhoeiro sagrado da nossa universidade e o que eu encontrei no livro não foi uma fonte de cultura e saber apenas, os livros disseram que eu devia ser autor não de histórias mas da minha própria vida”.

O livro ensinou aquele conceituado escritor a descobrir na vida uma escola infinita. “Eu sou contra a ideia de que o livro é a única fonte de sabedoria que existe”, contestou. Segundo o escritor, existem outras fontes de sabedoria que se devem saber aproveitar, “quando falamos em livros pensamos em texto escrito, mas nós não lemos apenas palavras, lemos as emoções na cara dos outros, o mundo, a cidade e o chão. Tudo pode ser uma página depende apenas da intenção do nosso olhar”. Para Mia, o que há de mais fascinante num livro é o momento em que se termina a leitura, pois tudo o resto começa.

“Tudo começa na infância, a infância não é um tempo, uma idade e uma faixa etária, mas é quando ainda não é demasiado tarde para aprender”, disse. Ele sonha um dia que a escolinha, que fica ao lado do seu local de trabalho, seja um lugar onde, tal como a 75ª Feira do Livro da Minerva, se abra um espaço de descoberta e de encantamento, com um mundo em que os livros estejam sempre em feira e que se abre como um pátio de uma escolinha onde todos aprendem a dançar com o futuro.

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