O cineasta Alex Gibney não estava sozinho ao ser enganado por Lance Armstrong e suas estridentes negativas sobre o uso de doping. Mas Gibney, como documentarista vencedor de um Oscar, estava em posição privilegiada, já que havia começado a fazer um filme que descrevia como “alto astral” mostrando a vitoriosa retomada da carreira do ciclista, na Volta da França de 2009, depois de se curar de um cancro de testículo.
Conhecido por abordar assuntos duros, como a tortura na guerra e a queda da empresa energética Enron, Gibney poderia ter adoptado uma abordagem mais leve num tema comum para ele – o sucesso a qualquer custo. O filme alto-astral foi abandonado quando as suspeitas de doping contra Armstrong ganharam força.
Uma investigação federal foi realizada, a Agência Antidoping dos EUA concluiu que Armstrong operou uma grande rede de distribuição de substâncias proibidas, e ele teve todos os seus títulos desportivos cessados. Quando neste ano Armstrong finalmente admitiu o uso de doping, em entrevista à apresentadora Oprah Winfrey, o filme foi retomado, resultando numa abordagem muito diferente.
“The Armstrong Lie” (“A mentira Armstrong”) estreia na sexta-feira nos Estados Unidos. Gibney sabia que, ao refazer o documentário, acabaria por se transformar num personagem importante. “A história agora era sobre o processo da construção do mito de Lance”, disse Gibney à Reuters. “Essa foi uma mentira que estava escondida à vista de todos, porque Lance era o seu curador, e um curador muito cuidadoso com o seu próprio mito.”
Cerca de um mês antes da entrevista com Oprah, Armstrong ligou para Gibney e lhe disse que havia mentido, pelo que pediu desculpas. Horas depois da entrevista agora famosa, ele voltou a se sentar com o cineasta e lhe falou sobre como foi viver “uma grande” mentira. E é assim que o filme começa, com um desconfortável Armstrong a falar de um jeito balbuciante, sem jamais se explicar propriamente sobre aquele que foi um dos maiores escândalos da história do desporto.
Gibney, no entanto, consegue fazer um bom uso do material do seu projecto original, que deveria se chamar “O Caminho de Volta”. Isso leva o espectador a acompanhá-lo na Volta da França de 2009, quando o cineasta teve acesso total ao ciclista, que por sua vez ficaria com parte da renda do filme. Gibney chegou a entrevistar o médico italiano que, segundo os críticos de Armstrong, foi o mentor por trás do uso de doping que permitiu ao ciclista ter uma carreira tão vitoriosa depois de sobreviver a um cancro.
“Acho que aquilo era parte do plano para aquele ano, que era: ‘Olhem para nós, estamos absolutamente limpos, não temos nada a esconder'”, disse Gibney, que admitiu ter torcido muito por Armstrong naquela competição.


