O académico Joaquim Marcos Manjate considera que Moçambique deve tomar medidas preventivas para a salvaguarda da sua soberania, tendo em conta a sua localização estratégica no Oceano Índico, que o posiciona como um espaço de elevado interesse global e potencialmente susceptível a pressões externas.
A posição foi apresentada quinta-feira, 2 de Abril, durante a aula inaugural do Ano Lectivo 2026 da Universidade Politécnica, realizada no Campus de Maputo, que marcou formalmente o início das actividades académicas e proporcionou uma reflexão subordinada ao tema “Novo Conceito de Segurança das Nações Unidas: Impacto Global e Nacional”.
Segundo o orador, o País dispõe de recursos, espaço e população que o colocam no centro de dinâmicas económicas e geopolíticas relevantes, destacando que uma parte significativa das rotas internacionais, incluindo a do petróleo, atravessa o Canal de Moçambique. Neste contexto, alertou que a ausência de medidas preventivas pode favorecer a actuação de redes organizadas, ligadas ao tráfico e a outras actividades ilegais.
“Podemos perder o espaço, como estamos a perder em Cabo Delgado, mas também podemos recuperá-lo. A verdade dos países reside na sua localização, nos seus recursos e na capacidade do seu aproveitamento e da sua protecção. Temos pessoas a assassinar cristãos em nome do Islão. Isso é uma bandeira do Estado Islâmico. Moçambique não tem problemas de conflito entre muçulmanos”, sublinhou Joaquim Marcos Manjate.
Ainda sobre a situação de Cabo Delgado, Joaquim Marcos Manjate acrescentou que “os que criam este problema têm muitos nomes, uns chamam de insurgentes, outros de jihadistas, outros de terroristas e outros ainda de inimigos sem rosto. Na verdade, eles gostam desses nomes porque estão a descobrir que não conhecíamos ou não sabíamos nada deles”.
Num outro desenvolvimento, defendeu que o posicionamento geográfico de Moçambique, aliado ao seu potencial económico, poderá influenciar o futuro da África Austral, sendo essencial a adopção de uma postura estratégica, preventiva e orientada para a defesa dos interesses nacionais.
“Para os que viajam para a África do Sul, conseguem ver mais de 20 ou 30 quilómetros de coluna de camiões com carvão a virem para o Porto de Maputo. Nós somos uma potência emergente e temos de nos comportar como tal”, disse o orador, que se referiu, também, à necessidade do reforço da capacidade nacional de exploração e protecção dos recursos, evitando assim a perda de controlo sobre o território e o potencial estratégico.
Por seu turno, a representante do Reitor da Universidade Politécnica, Rita Mbebe, realçou a importância do tema abordado pelo orador, que, na sua opinião, “é transversal e que nos enriquece enquanto cidadãos de um mundo a cada dia mais exigente e mais global”.
Joaquim Marcos Manjate é consultor internacional nas áreas de estratégia, negociação, liderança e segurança marítima, sendo igualmente professor visitante na Commonwealth Open University, em Inglaterra. Possui formação militar e académica diversificada, incluindo cursos frequentados em Cuba e na Rússia, licenciatura em Relações Internacionais e Diplomacia, mestrado em Gestão e Negociação, incluindo doutoramento em Gestão e Liderança.
Detém, ainda, um pós-doutoramento em Negociação de Conflitos, Paz e Guerra. Ao longo da sua carreira, desempenhou funções de destaque, incluindo vice-reitor académico, docente e investigador no Instituto Superior de Estudos de Defesa, bem como chefe da Inteligência nas Forças Armadas de Defesa de Moçambique, tendo alcançado a patente de brigadeiro-general na reserva.